A América Latina talvez seja uma das regiões onde modernidade e fratura histórica coexistiram de maneira mais intensa ao longo do século XX. Urbanização acelerada, instabilidade política, desigualdade estrutural e disputas permanentes de memória moldaram não apenas cidades e sociedades, mas também formas de sensibilidade e expressão artística. Em muitos momentos, a arte latino-americana deixou de buscar exclusivamente afirmações identitárias para transformar tensão histórica em linguagem estética. É desse território simbólico que emerge “América em Transe”, o concerto da Filarmônica UFRN que acontece no dia 06 de junho, às 18h e às 20h, no auditório Onofre Lopes, na EMUFRN.
Os ingressos estarão disponíveis na Platea, a mais nova plataforma de acesso, ticket e engajamento de audiência da Escola de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – EMUFRN. Um lote será liberado na quarta-feira, 3 de junho, às 8h platea.musica.ufrn.br e no local, no dia do evento, com distribuição 1h antes de cada sessão.

O programa reúne obras de Astor Piazzolla, Alberto Ginastera e Silvestre Revueltas em uma curadoria que aproxima diferentes experiências sonoras latino-americanas atravessadas por intensidade, deslocamento, ritual, violência e permanência histórica. As composições parecem compartilhar uma mesma atmosfera: cidades em convulsão, memórias interrompidas, pulsos coletivos e formas de existência em que beleza e brutalidade coexistem de maneira inseparável.
O concerto contará com o violoncelista Fabio Presgrave como solista em Le Grand Tango, de Piazzolla, sob regência do maestro chileno Rodolfo Fischer.
Reconhecido como um dos principais violoncelistas brasileiros de sua geração, Fabio Presgrave possui formação pela Juilliard School, de Nova York, e doutorado pela UNICAMP. Sua trajetória reúne atuação internacional como solista, pesquisador e professor, além de um trabalho decisivo na consolidação da formação musical e da produção acadêmica da Escola de Música da UFRN.

Já Rodolfo Fischer iniciou sua trajetória musical como pianista antes de dedicar-se à regência orquestral. Formado pela Universidade do Chile e pelo Curtis Institute of Music, na Filadélfia, estudou regência com Otto Werner Müller e consolidou uma carreira internacional marcada pela atuação em importantes teatros e orquestras da América Latina e da Europa. Foi maestro residente do Teatro Municipal de Santiago e atuou junto a instituições como o Teatro Colón de Buenos Aires, a Ópera Nacional Dinamarquesa e diversas orquestras sinfônicas europeias e latino-americanas. Atualmente, divide sua atividade artística com a docência em regência na Musik-Akademie Basel, na Suíça.

Abrindo o programa, Le Grand Tango transforma o tango em experiência urbana contemporânea. Em Piazzolla, Buenos Aires deixa de surgir como memória nostálgica para aparecer como pulsação física: intensa, fragmentada e permanentemente instável. A obra preserva a fisicalidade do tango, mas a projeta para um território híbrido, atravessado pela música de concerto contemporânea e pela linguagem urbana do século XX.
Na sequência, Variaciones Concertantes, de Alberto Ginastera, aproxima rigor formal e energia quase indomável. A obra explora continuamente contrastes de timbre, densidade e tensão, revelando uma escrita musical que oscila entre contenção e explosão. Em Ginastera, a sofisticação formal convive constantemente com uma matéria sonora áspera, atravessada por forças de instabilidade latente.
Encerrando o concerto, Sensemayá, de Silvestre Revueltas, conduz a orquestra a um dos territórios mais radicais da música latino-americana do século XX. Inspirada no poema homônimo de Nicolás Guillén, a obra ultrapassa qualquer leitura descritiva para construir uma experiência sonora obsessiva e ritualística. O ritmo deixa de apenas organizar o discurso musical e passa a capturar o próprio espaço da escuta. Repetição, tensão acumulada e densidade orquestral criam uma sensação contínua de vertigem coletiva.

Em “América em Transe”, a música não surge como simples comentário sobre a realidade latino-americana, mas como espaço sensível onde memória, conflito, violência e experiência coletiva permanecem em permanente estado de escuta.
A Temporada 2026 é realizada pela Filarmônica UFRN, EMUFRN, UFRN e PROEX, com patrocínio da Caixa Assistencial Universitária do RN (CAURN) e do Ministério Público do Trabalho no Rio Grande do Norte (MPT/RN), produção da Da Capo Produções Artísticas e apoio via emenda parlamentar do deputado Fernando Mineiro.




