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COMPORTAMENTO NA PANDEMIA REPETE ATITUDES DE PESSOAS EM CALAMIDADES DO PASSADO, DIZ PSICANALISTA

A pandemia de Covid-19 tem deixado marcas indeléveis no seio de milhares de famílias brasileiras. O luto por um parente ou amigo morto, a impossibilidade de realizar os ritos funerários do último adeus e o temor de ser a próxima vítima vêm resultando num aumento expressivo da depressão conforme algumas pesquisas realizadas nos últimos meses.

A médica e psicanalista Helenita Monte de Hollanda acompanha este quadro observando, por um lado, a repetição nos dias de hoje, de atitudes das pessoas que enfrentaram pandemias do passado. Além disso, seu trabalho de pesquisa (que já dura mais de vinte anos) junto a rezadeiras e benzedeiras do Nordeste mostra que tem aumentado o número de frequentadores destes centros para tratar depressão e outros transtornos ocasionados pelo medo que se estabeleceu na sociedade.

“Não nos enganemos, os comportamentos do passado não diferem muito do que estamos vendo acontecer hoje. Sempre houve negacionistas, medrosos, melindrosos, precavidos. Os que se apavoram e os que desafiam a doença. A dificuldade de isolamento social traz consigo muito mais do medo do que imaginamos – medo com aparência de negligência e irresponsabilidade. O isolamento que protege do vírus nos expõe a outras ‘mazelas’ e, não à toa, depressão, ansiedade e transtornos de pânico espalham-se entre a população sofrida por perdas ou amedrontados pela doença”, disse.

Ela comparou a situação atual com eventos do passado. “Por acaso as ‘galeras’ que se aglomeram nas baladas de hoje diferem dos alegre jovens citados por Giovanni Boccaccio no seu livro Decamerão que fugiam de Florença durante a peste negra de 1348? Em comum, são grupos que se juntam por medo!”, citou, acrescentando que a saúde mental sofre e até adoece ante o isolamento “e isto pode ser visto desde as grandes epidemias que devastaram a Europa nos séculos XIII e XIV – o pavor frente ao risco do contágio já era doença”.

De acordo com a psicanalista, também no século XVII médicos colocam no medo uma fraqueza tal que atuaria como “facilitador do adoecimento”, e já no século XX, a causa de uma epidemia de cólera, é atribuída, entre outros, ao medo, que seria fator facilitador ao contágio. “É claro que hoje, com a evolução científica, compreendemos as causas psicológicas como responsáveis por diminuição do sistema de defesas orgânica facilitando o contágio nas epidemias”.

As marcas de um momento como o que estamos vivendo, conforme Helenita, determinam cicatrizes que exigem formas originais e criativas para lidar com elas. “Teremos uma, talvez duas, gerações marcadas pelo medo, pela dor de perdas impensáveis, por despedidas necessárias e impossíveis, pela ausência dos ritos que acompanham o estado de luto. Não se trata de ‘recuperação’, mas de conviver com uma realidade posta e inelutável. Os sintomas advindos deste estado de coisas é próprio de cada um e, como todo sintoma, falando psicanaliticamente, a reação, a depender de cada indivíduo, é o melhor que o sujeito (sujeito do inconsciente) pode fazer para suportar o Real”.

A psicanálise como uma prática que se ancora na fala e na escuta coloca-se da sua forma própria, acolhendo e permitindo que, movido pela transferência “o analisante fale e escute o próprio dito, elaborando, ele mesmo, as possibilidades de saída do estado de terror e encontrando formas mais saudáveis para viver a situação, deslocando o sintoma, necessário, para um lugar de maior ‘conforto’, onde o sujeito possa levar a vida com mais leveza e menos sofrimento. Mas não nos esqueçamos que o vírus chegou num momento delicado encontrando a nossa civilização vivendo com altos índices de suicídio e depressão, por exemplo, e uma crise social e econômica sem precedentes. É sobre um sujeito já muitas vezes estremecido e em crise que a pandemia desaba”.

Fotos: médica Helenita Monte de Hollanda (arquivo pessoal)

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