Na Hora H

PRIMOROSO TEXTO DE NAPOLEÃO PAIVA

ASTOR PIAZZOLA
Uma noite em Natal

Às vezes, como agora, quando passo em frente ao Ginásio Silvio Pedrosa — quadra de esportes na lateral do Colégio Estadual do Atheneu, lembro-me de um show ali realizado, do genial músico argentino Astor Piazzolla.

O ano era 1975, ou comecinho de 76 — a memória me nega a exatidão —, transcorridos pois 45 anos da noite memorável.

Piazzolla carregava a fama de ter reinventado ou revolucionado o tango, música consagrada universalmente por Gardel, Discépolo, Aníbal Troilo, e uma dezena de grandes compositores e poetas da paixão dilacerada das letras de tango.

Os argentinos estavam em alta pelo sucesso de “Último Tango em Paris”, filme com músicas de Gato Barbieri, saxofonista hermano que embalava as cenas sensualíssimas de Marlon Brando/Maria Schneider, entre tantas a da manteiga, a mais badalada.

A trilha sonora dividia par a par o estrondoso sucesso do filme de Bernardo Bertolucci.

Nesse clima, de repente, Astor Piazzolla aporta numa Natal provinciana, no coração do bairro de Petrópolis, trazido por Hilneth Correia, coleguinha que se iniciava no colunismo social e produção de eventos.

A acústica do Ginásio em nada ajudava, mas reverberava em nós os sons de um criador único, talvez por isso incompreendido pelos amantes da música argentina, mais propriamente pela velha-guarda do tango. Fala-se em insultos nas calles de Buenos Aires — “assassino do tango”, entre outros.

De formação musical que incluía o tango, o clássico, e naturalmente o jazz, já que fora menino pobre criado nas ruas de New York, terminou por chegar a uma fusion das três. Comenta-se que seguiu em parte a orientação de uma professora de música que o aconselhou: se gosta tanto dos três gêneros, não os abandone.

Trouxe assim para o tango o refinamento da música erudita, a construção melódica de Bach, grande influência; a criatividade do jazz, com sequências desvairadas que chegam a sugerir improvisação. Mas mantém na íntegra o sentimento do tango, sua alma. O fio emocional que cerze a música de Gardel, de Troilo, mantém-se inteiro nas composições de Piazzola.

A famosa definição de Ernesto Sábato, o tango é um sentimento triste que se baila, abrange desde o revolucionário músico, assim como a composição tanguera mais tradicional.

O bandoneon e suas infinitas possibilidades só enriqueceu-se com a genialidade do portenho de cara fechada, de jeito áspero, que certa noite encheu os céus de Petrópolis com uma música de outro mundo — Libertango, Balada para un Loco, Vuelvo Al Sur, Adios Nonino…

Não teria certamente escrito este textículo se, como morador do Bairro, não tivesse em data recente pedido a um taxista que me deixasse na rua tal, pertinho do Colégio Atheneu, e ele surpreso: Atheneu, onde fica esse Atheneu?

Vetusto educandário, coração da capital, polo de ensino, cultura e política a caminho de 200 anos, que um dia também irradiou nos céus de Petrópolis a voz e a fina flor do pensamento de Cascudo, Edgar Barbosa, Severino Bezerra, Pedro Velho, Augusto Severo, Antônio Pinto de Medeiros, entre outros tantos ilustres professores.

Lembrou-me de imediato o poema Pneumotórax, de Manoel Bandeira. O médico diante do paciente gravíssimo com tuberculose:
— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Napoleão Veras

Nota do portal: Boas lembranças dos tempos de produtora por esse Brasil afora. Rsssssss o produtor Luiz Carlos (Igrejinha de São Paulo), um visionário que levou a boa música pelo nosso Brasil. Claro, perdeu dinheiro. Mas está escrito na história.

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