Mais do que nutrir o corpo, a comida tem um papel silencioso, mas poderoso: o de alimentar emoções, evocar memórias e despertar afeto. Para idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade, essa conexão emocional com a alimentação pode ser mais do que simbólica: pode ser terapêutica.
Um estudo recente da Universidade Estadual de Washington (EUA) mostra que pratos que remetem à infância, à família ou a momentos de carinho contribuem para o bem-estar emocional, estimulam o apetite e melhoram a qualidade da alimentação com o passar dos anos. Em outras palavras, o sabor da lembrança pode ser um aliado na promoção da saúde.
A nutricionista Raphaella Martins, da Hapvida em Natal, conhece bem esse efeito. “Alimentar-se bem vai além de contar calorias. Um simples arroz de leite, feito como o da avó, pode trazer conforto, tranquilidade e fazer com que um idoso, mesmo com pouco apetite, volte a comer com prazer”, afirma.
Esse cuidado é importante no combate à desnutrição, uma condição comum entre os idosos e que, muitas vezes, passa despercebida. “Adaptar receitas tradicionais para versões mais nutritivas é uma forma de cuidar da saúde sem romper com o vínculo afetivo que a comida representa”, reforça Raphaella. “É um carinho que nutre, especialmente para quem vive sozinho ou está em recuperação.”
O estudo também recomenda que profissionais de saúde considerem esse aspecto emocional ao planejar cardápios voltados para a terceira idade. Para Raphaella, transformar a alimentação em um momento de prazer e afeto é mais do que um gesto simbólico, é um passo fundamental para promover bem-estar, saúde e qualidade de vida.
Idosos, sobretudo em tratamento, têm demonstrado respostas positivas a pequenos gestos, como perguntar qual era o prato favorito da infância ou envolvê-los no preparo da refeição. “Muitos voltam a sorrir ao falar de uma comida especial, e isso muda completamente a disposição para comer”, comenta Raphaella. Além de resgatar memórias, esse cuidado fortalece o vínculo entre o paciente e a família.
A comida afetiva também tem se mostrado uma aliada em contextos de saúde mental. Para idosos que enfrentam quadros de depressão, ansiedade ou luto, a reconexão com sabores do passado pode funcionar como um gatilho positivo, criando pontes com momentos felizes e reduzindo a sensação de isolamento. “É uma forma de dizer: você é importante, sua história importa, e a comida pode ser um canal para isso”, conclui a nutricionista.



