Recentemente tive a oportunidade de visitar a Galeria B-612, localizada no histórico bairro da Ribeira, em Natal, que acaba de retomar suas atividades após um período de portas fechadas. Fui recebida pessoalmente pelo empresário e colecionador Anchieta Miranda, idealizador do espaço, que gentilmente me conduziu por uma visita guiada pelas instalações da galeria, compartilhando histórias, curiosidades e detalhes sobre o acervo reunido ao longo de muitos anos.


Instalada na Rua Dr. Barata, um dos endereços mais tradicionais da Ribeira, a galeria ocupa um prédio que guarda parte da memória cultural da cidade. Ao percorrer os ambientes, é possível perceber que o espaço vai além de uma simples exposição de obras: trata-se de um verdadeiro encontro entre arte, história e colecionismo.

A Galeria B-612 reúne pinturas, esculturas, gravuras, objetos decorativos e peças de mobiliário antigo, compondo um ambiente que mistura galeria de arte e antiquário. O visitante encontra obras de diferentes estilos e épocas, com destaque para artistas potiguares que ajudaram a construir a identidade das artes visuais do Rio Grande do Norte.


Entre os nomes presentes no acervo estão artistas consagrados da cena local, como Newton Navarro, Dorian Gray Caldas, Tomé Filgueira, Vatenor, Fernando Gurgel, Jordão, Iaperi Araújo e Assis Marinho, entre outros. As obras variam entre pinturas, desenhos, esculturas e gravuras, formando um conjunto que revela diferentes momentos da produção artística potiguar.

O universo do Pequeno Príncipe
Um detalhe que chama a atenção logo na chegada é a inspiração literária presente no espaço. O nome B-612 faz referência ao asteroide onde vive o personagem do clássico O Pequeno Príncipe, do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, e logo na entrada da galeria, nos recebendo, está o Acendedor de lampiões com a citação:
“Quando acende o lampião, é como se fizesse nascer mais uma estrela.”
— Exupéry

O personagem representado é o acendedor de lampiões. Ele está acendendo um lampião de rua com uma vara longa, como era feito antigamente antes da iluminação elétrica automática. Esse personagem aparece em um dos planetas visitados pelo Pequeno Príncipe. Ele acende e apaga o lampião sem parar, porque o planeta gira muito rápido. Mesmo assim, ele continua cumprindo sua tarefa com responsabilidade.
Essa referência aparece em diferentes pontos da galeria, seja em esculturas, objetos decorativos ou frases do autor que ajudam a criar uma atmosfera poética no ambiente. Assim como no livro, a proposta parece convidar o visitante a olhar para a arte com sensibilidade e imaginação.




Anchieta Miranda e sua trajetória com a arte
A relação de Anchieta Miranda com o universo das artes não começou com a B-612. Anos antes, ele já havia criado em Natal a Galeria Anjo Azul, localizada na Avenida Hermes da Fonseca.
O espaço ficou marcado por uma grande escultura de um anjo azul instalada logo na entrada, que acabou se tornando símbolo da galeria e referência visual para quem passava pelo local. A experiência com a Anjo Azul reforçou o interesse de Anchieta pelo colecionismo e pela difusão das artes visuais.

Imagem retirada do blog Potiguarte
Com a criação da Galeria B-612, esse vínculo com a arte ganha uma nova dimensão, reunindo um acervo ainda mais amplo e abrindo novamente ao público um espaço dedicado à cultura na Ribeira.
Ambientes, jardim e novas áreas da galeria
Além das salas expositivas, Anchieta Miranda também ampliou o espaço original da galeria ao estender a área lateral do prédio, criando novos ambientes destinados a receber mais obras e proporcionar maior conforto aos visitantes. Nesse espaço encontram-se banheiros e lavabos elegantes e bem estruturados, além de áreas de convivência com aconchegantes poltronas de couro, que convidam o público a permanecer e apreciar o ambiente com tranquilidade. O prédio conta também com um moderno elevador , possibilitando a mobilidade e acessibilidade a parte superior do prédio.





Entre as esculturas presentes no pátio da galeria, chama atenção uma representação de Iemanjá. A peça, que também funciona como fonte decorativa, foi criada pelo escultor potiguar Emanuel Câmara e integra o conjunto de obras que ocupam a área externa do espaço.

Ao lado dessa área, uma área verde abriga esculturas de diferentes dimensões, distribuídas entre o jardim e os caminhos do espaço externo. Entre elas, chama atenção uma delicada “garden fountain”, fonte decorativa em cobre, inspiradas em cenas da vida cotidiana europeia do início do século XX.

A sala-cofre e outras curiosidades
Outro ponto curioso da galeria é o cofre original da antiga instituição financeira que funcionou no prédio, preservado como parte da arquitetura histórica do imóvel. Hoje ele integra a instalação do espaço e pode inclusive ser alugado para pequenas exposições, funcionando como uma sala expositiva singular dentro da galeria.
O contraste entre a estrutura metálica original e as obras expostas cria um ambiente bastante singular, revelando também a história do próprio imóvel e a forma como o passado foi incorporado à proposta cultural do espaço.


Um ponto de encontro cultural
Além da exposição permanente de obras, a galeria também tem a proposta de funcionar como um ponto de encontro entre artistas, colecionadores e apreciadores de arte. O espaço já recebeu eventos culturais, exposições e encontros que ajudam a fortalecer o circuito artístico da cidade.


O projeto da Galeria de Arte B-612 também prevê um espaço destinado ao café, onde no final da visita, degustei uma água de côco geladinha, oferecida pelo próprio Anchieta, encerrando o passeio de forma agradável depois de percorrer cada detalhe desse espaço dedicado à arte e à cultura na Ribeira. A proposta do café segue o modelo de muitas galerias internacionais, onde a contemplação das obras se mistura a momentos de convivência e troca cultural, integrada a uma área gourmet.

Com sua reabertura, a Galeria B-612 volta a integrar o cenário cultural de Natal e contribui para manter viva a tradição artística do bairro da Ribeira, área histórica que ao longo do tempo foi palco de importantes manifestações culturais da capital potiguar.

Visitação
📍 Galeria B-612
Rua Dr. Barata, 216 – Ribeira – Natal/RN
🕘 Horário de funcionamento
Segunda a sexta: 8h às 12h e 13h30 às 17h
Sábado: 8h às 13h
Texto de Camille Correia para o site




