Nossa Coluna

UMA BELA CRÔNICA PARA CID

A “sua partida repentina” deixou a cidade perplexa, os muitos amigos anônimos… a cidade que gostava dele e ele nem sabia! Hoje transcrevo uma linda crônica escrita pelo seu sobrinho, um dos filhos do coração, o Juiz Bruno Montenegro Ribeiro Dantas. Resume tudo o que poderíamos dizer!!!

Adeus, Cid Montenegro

por Bruno Montenegro Ribeiro Dantas

Diz-se, por aí, que a felicidade consiste em ter boa saúde e má memória. São ingredientes relevantes para uma boa vida. Mas quando chegar a hora de as cortinas se fecharem, deve-se ter a certeza de que, se preciso fosse, começar-se-ia tudo outra vez.

Ontem, correio algum poderia trazer notícias mais tristes e, ao mesmo tempo, para nós familiares, mais lisonjeiras. Se grandes são os motivos para chorar lágrimas de melancolia e de aflição, não menores são as causas do consolo inerente às inúmeras manifestações de afeto. De fato, Cidão, não me passa despercebido: não foram tempos banais! Antes de tudo, devo dizer que esta singela homenagem desvela um indisfarçável sentimento de tristeza.

Bem. Em um de seus dizeres mais expressivos, Vinicius de Moraes advertiu que os amigos não são feitos, mas reconhecidos. Poucas ideias parecem traduzir com tanta fidelidade a trajetória de Cid Montenegro.

E olhando pelo retrovisor, logo se percebe que Cidão tinha a singular capacidade de reconhecer as pessoas antes mesmo de conhecê-las.

Partiu aos sessenta e um anos. Uma idade, eu diria, insuficiente para quem ainda colecionava histórias e seguia multiplicando afetos. Tragicamente para a condição humana, a morte jamais se preocupou em consultar a vida sobre o momento oportuno para a sua chegada. É perverso. Mas é assim.

Quis o destino que eu tivesse conversado com ele pouco antes da lamentável notícia. Depois soube que muitos outros haviam desfrutado desse mesmo privilégio. Em toda extensão imaginável, o sobrenatural lhe concedera, sem que o percebesse, a oportunidade de repartir uma última conversa com alguns daqueles que o estimavam.

Cidão possuía um coração desmedido.

E considerada a causa de sua morte, residiu precisamente aí a sua maior vulnerabilidade. Há quem atravesse a existência preservando o próprio coração. Ele preferiu consumi-lo por inteiro, simbólica e literalmente.

Era uma figura ligeiramente folclórica. Absolutamente genuína.

Seja no Rio Grande do Norte, seja no Rio de Janeiro, parecia sempre existir alguém à sua espera. O futebol, para ele, jamais se reduziu à condição de esporte.

Era uma linguagem. Um idioma que nele encontrava um de seus mais espontâneos intérpretes.

Ainda que sem qualquer investidura formal, Cidão exerceu, durante toda a vida, uma espécie de embaixada afetiva do Flamengo no Nordeste. Cultivou amizades sinceras com Zico, Júnior e tantos personagens da história rubro-negra – e de tantos outros clubes. Referia-se a eles com a naturalidade de quem compreendia que a amizade vale infinitamente mais do que a notoriedade.

Em grande medida, foi ele quem me proporcionou experiências capazes de explicar, mais do que qualquer raciocínio, o apreço apaixonado que desenvolvi pelo Flamengo.

De outro lado, bastava mencionar o ABC para que sua voz adquirisse outra tonalidade. Hoje vejo que o Flamengo representava o encantamento. O ABC simbolizava a origem. Um lhe incendiava a alma. O outro jamais lhe deixara esquecer quem era.

Interessava-se por quase tudo.

Era, na acepção mais própria da palavra, um polímata. É bem verdade que política e futebol exerciam sobre ele um fascínio permanente. Conversava com memória admirável, entusiasmo levemente juvenil e convicções firmes, sem jamais abrir mão do prazer proporcionado pelo bom diálogo.

Também na política cultivava uma virtude que o tempo tornou progressivamente mais rara: a lealdade. Endereçou, de sempre, amizade, respeito e fidelidade ao ex-governador Garibaldi Alves Filho. Não se tratava de uma fidelidade circunstancial, de ocasião ou conveniência. O atributo emergia do caráter.

Contava histórias.

Mais precisamente: fazia-as reviver.

Suas imitações, ao tempo em que irresistivelmente hilariantes, não ridicularizavam as pessoas. Antes, celebravam-nas.

Não teve filhos.

Ou talvez os tenha tido, à sua maneira.

Referia-se a mim, ao meu irmão e aos meus primos como sobrinhos-filhos. Ainda ontem fê-lo. A expressão dizia muito menos sobre nós do que sobre ele. Desnudava a dimensão do seu coração e a nobreza da sua alma.

Nutria pelo pai, meu saudoso avô Antônio Montenegro, uma admiração próxima da devoção. A mãe Gipse, de há muito no plano espiritual, parecia acompanhá-lo como uma presença sagrada. Às irmãs, Madoca e Mimi — Mada e Bebeta —, dedicava um afeto que parecia decorrer da certeza de que todos haviam sido feitos do mesmo material.

Se prejudicou alguém ao longo da vida, tudo indica que tenha sido somente a si mesmo.

Quando Mia Couto escreveu ser o mar um habilidoso desenhador de ausências, é necessário acrescentar que a morte também domina essa mesma arte. Ela desenha um vazio singular, cuja forma ninguém consegue reproduzir.

Rubem Alves, porém, oferece um consolo maior ao recordar que a história pertence ao tempo, enquanto as estórias alcançam a eternidade. É justamente isso que Cidão nos deixa.

Estórias e histórias. Muitas delas.

Tantas destinadas a sobreviver nas mesas de amigos, nos grupos de WhatsApp que lhe eram particularmente caros, nos encontros familiares, nas arquibancadas, nas conversas despretensiosas e nas gargalhadas inevitavelmente provocadas por alguma de suas inesquecíveis anedotas.

Se somos parte daquilo de que lembramos, como cedo preveniu Norberto Bobbio, também somos igualmente aquilo que escolhemos amar.

Se assim for, Cidão permanecerá inteiro entre nós.

Poderia ir além, mas o momento aconselha a parar por aqui, seja pelas limitações deste modesto escriba ou por outras razões que ora me escapam.

Ao final, Cidão sempre soube que a vida não se repete. Que os amores não são iguais. É como em Fernando Pessoa, que nos fez recordar que ninguém pode viver a sua época e todas as épocas ao mesmo tempo, tampouco escrever para homens e deuses o mesmo poema.

Mas se um dia vierem contar a minha história, que digam isto: que não sem uma ponta de orgulho, vivi na época do grande Cid Pereira Montenegro. E que tive a honra de ser seu sobrinho (ou melhor, seu sobrinho-filho).

Adeus, Cidão.

Com imenso carinho,

Bruno Montenegro Ribeiro Dantas

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