Por Ney Lopes
Na Abadia de Westminster, em Londres, no próximo sábado, 6, a partir de 10 hs (6 da manhã no Brasil) inicia-se uma das cerimonias mais aguardadas no mundo.
A coroa de santo Eduardo, que é a oficial da coroação dos monarcas britânicos, será colocada na fronte de Carlos III, 74 anos, pelo arcebispo de Cantuária.
Um ritual arcaico, belo nos pormenores, uma glorificação da continuidade e da História.
Carlos III é o herdeiro da coroa britânica, que por mais tempo esperou para ascender ao reinado.
Vida pessoal– Depois de tanto esperar, o rei vai entrar na Abadia de Westminster para ser coroado carregando legado de décadas de polêmicas, que envolvem uma turbulenta vida pessoal, escândalos políticos e financeiros e o próprio estilo — bem distante da imagem de neutralidade real moldada pela mãe, Elizabeth II
Diana – Em 29 de julho de 1981, o mundo parou diante da televisão para assistir a um conto de fadas da vida real.
O príncipe herdeiro do trono britânico casava-se com a bela plebeia Diana Frances Spencer,
Ilusão – O casamento transformou-se numa ilusão de casal modelo da realeza.
Um ano antes do anúncio oficial do divórcio, o jornalista Andrew Morton publicou a biografia “Diana: sua verdadeira história”, que mostrou a luta de Diana contra a bulimia a e a depressão.
Entrevista – O grande impacto na imagem do futuro rei veio da entrevista de Diana (1995) na BBC, que expôs o motivo da separação real:
“Éramos três nesse casamento, então estava um pouco lotado”, disse ela, confirmando ao mundo a infidelidade de Charles, com a atual rainha consorte, Camilla Parker-Bowles.

Acidente – A morte inesperada de Diana, em 1997, foi um momento crítico para a monarquia britânica.
Adorada no Reino Unido e uma das pessoas mais conhecidas no mundo, o acidente de carro que matou a “princesa do povo” também ameaçou abalar as estruturas da realeza.
Malas de dinheiro – Charles envolveu-se em escândalos denunciados pela imprensa em doações destinadas ao Fundo de Caridade, a época criado por ele.
Três milhões de euros lhe teriam sido entregues em encontros com o príncipe Hamad bin Jassim Al Thani, primeiro-ministro do Catar, que é proprietário do time de futebol mais valioso do mundo, o Paris Saint-Germain.
Outra doação causou polêmica.
Foram recursos da família do líder da al-Queda, Osama bin Laden, dois anos depois da morte do terrorista responsável pelos atentados do 11 de Setembro de 2001, nos Estados Unidos.
Lobista – A imprensa britânica acusou Charles de tráfico de influência, com acesso a documentos confidenciais que, em alguns casos, não foram vistos nem por integrantes do governo.
Um parlamentar chegou a chamar o futuro rei de “o lobista mais bem informado” do Reino Unido.
A cerimônia – Mesmo com uma vida agitada, a coroação de Carlos III será na Abadia de Westminster, igreja anglicana, o templo mais antigo e famoso de Londres.
É o local das coroações dos monarcas britânicos, desde 1066.
O ritual é do anglicanismo, a religião oficial em terras de sua majestade, instituída por Henrique VIII no século XVI, adotada pela maioria dos britânicos.
Chefe – O rei Charles III passa a ser o chefe da Igreja Anglicana.
Herdou o título de “defensor da fé e governador supremo da Igreja da Inglaterra.
Legisladores – A particularidade da religião é que os Bispos anglicanos desempenham função legislativa: 26 deles têm assento na Câmara dos Comuns, que possui um papel similar à Câmara dos Deputados, no Brasil.
Trata-se da principal casa legislativa inglesa
Catolicismo – O catolicismo, considerado a “primeira minoria religiosa” do Reino Unido, é professado por aproximadamente 10% da população.
Ainda assim, esta é uma percentagem bastante superior à de outras religiões como o islão (2,7%), o hinduísmo (1%) ou o judaísmo (0,5%).
A principal diferença entre o anglicanismo e o catolicismo é que os anglicanos dos sete sacramentos da Igreja Católica Romana, reconhecem apenas dois: o batismo e a eucaristia.
Popularidade – Apenas metade dos britânicos tem uma opinião favorável sobre Carlos III, que é menos popular do que a irmã, a princesa Anne, que o filho mais velho, príncipe William, e a nora Kate, de acordo com uma pesquisa atual.
A vida de qualquer membro da realeza é repleta de visitas de Estado, seja recebendo políticos e outros membros da realeza no Reino Unido, ou viajando pelo mundo para vários compromissos.
O rei Charles não é exceção. A sua mãe, rainha Elizabth II, foi a monarca mais viajada do mundo, com 300 viagens ao exterior durante seu reinado.

Viagens I- As nações mais visitadas pelo rei Charles, até agora, foram Alemanha em mais de 40 ocasiões, com 28 visitas oficiais.
A França 35 vezes. Estados Unidos 20 turnês oficiais pelo país. Itália 18 visitas oficiais; Canadá 18 visitas. Nova Zelândia nove vezes. India 10 vezes.
Brasil – Diferentemente da rainha Elizabeth 2ª, que veio ao Brasil só uma vez, o novo rei da Inglaterra já visitou o país em quatro oportunidades.
Esteve em Brasília, no Rio de Janeiro e no Pará.
Foi uma missão em defesa do meio ambiente.
Coroações – Sábado, 6, o mundo, com certeza, irá assistir uma das últimas coroações de monarcas.

A memória da Revolução Francesa empurra a Europa para uma existência menos opulenta e mais consentânea com a realidade.
Não se justifica a pompa que teve Napoleão Bonaparte, uma das mais esplêndidas coroações — para a qual arrastou o Papa a Paris —, antes de ser remetido ao miserável exílio em Santa Helena.
Desgastes – Atualmente, os conflitos e divisões na família real ofuscam a imagem da realeza.
Veja-se por exemplo, a situação do princípe Harry, o marido de Meghan Markle.
Ele não terá uma posição privilegiada na coroação.
Deve sentar-se 10 fileiras atrás de seu pai.
O motivo é que os dois ainda não estão se relacionando bem.
Manias I– O rei Charles III é conhecido por ser uma figura extremamente metódica.
Entre regalias e manias, o monarca da Coroa Britânica coleciona uma série de hábitos bem “diferentes”, segundo o livro “The King; The Life of Charles III”, de Christopher Anderson, recém-lançado em Londres.
Ele possui um assento sanitário personalizado, que não pode faltar em suas viagens oficiais.
Também leva a sua marca favorita de papéis higiênicos, a Kleenex Velvet.
Somente utiliza o vaso sanitário caso a tampa esteja em uma determinada posição.
Além disso, o Rei do Reino Unido é bastante rígido quanto ao banho: sua banheira só pode ser enchida com água morna, até a metade.

Manias II – Não gosta do tilintar dos cubos de gelo, quando caem em um copo.
O monarca possui sua própria bandeja e uma equipe que o serve.
Tem funcionário responsável por barbear seu rosto, arrumar o pijama e até aplicar creme dental em sua escova.
Os alimentos servidos no desjejum possuem uma ordem estabelecida.
Por exemplo: manteiga gelada, servida em três bolas.
Recebe três ameixas, mas só come uma delas.
Os ovos servidos terão que ter textura e maciez exigidos pelo Rei e são testados três vezes pelos “chefs”.
Manias III- Charles dorme até hoje abraçado ao ursinho de pelúcia, que ganhou em criança.
É adepto da lavagem de mãos constante.
Tem como hábito visitar túmulos de pessoas, que já faleceram.
Para ele, nada melhor do que poder conversar com essas pessoas que já se foram.

Manias IV – O jornalista e escritor Ruy Castro, em crônica na “Folha”, escreveu que Charles não é o único com “manias”.
Segundo ele, Frank Sinatra tinha em casa um galpão com miniaturas de locomotivas e vagões deslizando por trilhos, cruzando cidades, atravessando túneis e apitando.
Frank fantasiado de maquinista controlava o trem.
Ruy Barbosa era leitor da revista “Tico Tico”.
Vinicius de Moraes sempre tomou banho de banheira, brincando com patinhos de plástico.
E Ronaldo Fenômeno, dizem, fez xixi na cama até tarde.
Namoradas I – O príncipe Charles era atormentado por não encontrar uma mulher para casar antes dos 30 anos.
Conforme a idade se aproximava, a personalidade real se aventurou em romances.
Ele chegou a pedir a mão de uma namorada em casamento, porém, ela não aceitou.
Namoradas II-O príncipe Charles colecionou namoros com beldades, durante a década de 1970.
As mulheres foram apelidadas pela imprensa de “Charlie’s Angels”.
A sua primeira decepção foi ao ser rejeitado pela então namorada Camilla Shand (hoje sua esposa), que casou com o oficial do exército Andrew Parker Bowles, enquanto ele se ausentara do país para servir a Marinha.

Namoradas III – Quando Diana e Charles se conheceram, ele tinha um romance com a sua irmã, Lady Sarah.
Na época, Diana tinha apenas 16 anos e Charles 30.
No verão de 1980, quando Diana o viu jogar pólo durante um fim de semana no campo, Charles se interessou seriamente por ela.
No final, ele se casou com Diana, em 29 de julho de 1981, após quatro meses de namoro. Ela tinha 19 anos.
A primeira discordância do casal ocorreu na lua de mel, a bordo do Iate “Britannia”, quando Diana descobriu que Charles ainda carregava itens em homenagem à sua ex-namorada, Camilla Parker Bowles, que é a sua atual esposa.
Realmente, um conto de fadas, que depois virou pesadelo.
(Publicado no jornal “Agora RN”)

A cerimonia de ascensão do rei ao trono tradicionalmente era revestida de uma certa sacralização, ou seja, a coroação reforçava a ideia de momento sagrado, com intervenção divina na ordem terrena.
Na França era chamada de “le Sacre”.
Esse rito não existe mais. As coroações transformaram-se em proclamações, perante o Parlamento, sendo consideradas ato político-administrativo.
Westminster – No Reino Unido, desde o ano de 1066, cerca de 39 monarcas foram coroados como reis ou rainhas, sempre na tradicional Abadia de Westminster.
Curiosidade – A Abadia é emblemática no anglicanismo.
Há um detalhe curioso: o piso foi construído em 1268 e ficou escondido por mais de 100 anos.
É o acesso no qual as pessoas se dirigem ao altar, onde está a cadeira de coroação.
Chegou a um estado tão ruim de conservação, que ficou escondido debaixo de um carpete, desde 1870, até passar por um trabalho recente de restauração.
Rei sem coroa – Dois reis não tiveram o privilégio de serem formalmente coroados na Inglaterra.
Edward 8º, que depois de quase um ano como soberano britânico decidiu abdicar em 1936 em favor de seu irmão mais novo.

Outro rei que nunca foi coroado Edward 5º, que em 1483 e depois de passar três meses no trono britânico com apenas 12 anos de idade, foi deposto e desapareceu (presume-se que tenha sido assassinado).
Crises – A rainha Elizabeth II enfrentou e viveu inúmeras crises.
Passou pela reconstrução do país no pós Segunda Guerra Mundial, onde o Reino Unido, liderado mais uma vez por Winston Churchill, atravessava dificuldades econômicas.
Teve relações tensas e conflituosas com Margareth Thatcher, porém trabalhou em conjunto na implementação de políticas comuns.
Thatcher foi a primeira-ministra com maior tempo no cargo.
Confiança – Os sinais são de que Charles III não traz a confiança de estabilidade, que a rainha Elizabeth II transmitia.
Ela era um símbolo do soft power (poder suave) britânico, que foi extremamente útil para a diplomacia da realeza.
Espaço – O papel de um monarca envolve a arte política e habilidade na comunicação popular, através de gestos e comportamentos. No Reino Unido, a imprensa e a opinião pública têm grande peso.
Será que Charles ocupará com serenidade, o espaço deixado por sua mãe?
Sucessão – Um aspecto curioso de análise é a linha de sucessão britânica, uma lista com o nome das pessoas que são consideradas membros do trono britânico.
Essa lista permitiu, por exemplo, Charles chegar ao trono.
Os critérios estão estabelecidos em duas leis. “Bill of Rights” uma carta de Direitos, criada e aprovada pelo Parlamento da Inglaterra em 1689.
Foi um avanço democrático, em pleno século XVII, sobretudo na garantia dos direitos individuais.
A outra lei é o “Act of Settlement”, que garantiu a ocupação do trono britânico, por uma sucessão de monarcas protestantes.
Os sucessores não podem ser católicos, mas podem casar-se com católicos e devem garantir a preservação da Igreja Anglicana.
Igreja Católica – Dois Papas visitaram o Reino Unido. Foram eles: o Papa João Paulo II e o Papa Bento 16 (2010).
Em 1982, na visita de João Paulo II houve troca completa de embaixadores entre o Reino Unido e a Santa Sé.
Bento 16 desembarcou em Edimburgo, na Escócia e fez uma visita oficial e pastoral de quatro dias.
Data – O dia da coroação – 6 de maio – foi escolhido pela data de nascimento do primogênito do príncipe Harry e Meghan Markl.
A data também registra a morte do tataravô de Charles rei Eduardo VII, em 1910.
Dois mundos – A coroação é uma espécie de relíquia, guardada religiosamente e raramente exibida, que enche de orgulho os devotos, mas traz à tona a desconfiança dos descrentes.
O seu efeito sobre a sociedade do século XXI é ainda um mistério. A pompa demonstrada dividirá o equilíbrio entre dois mundos. Um, de opulência e tradições. Outro, de multidões em desamparo pelas desigualdades sociais.
Indagação –A grande questão é saber se a monarquia sairá fortalecida.
Vive-se um tempo repleto de censuras sobre o que fomos e dúvidas sobre o que podemos ser.
É o caso de indagar: a coroação de Charles III seria o canto de cisne, no derradeiro momento de um tempo que se vai?



